31.12.08

V is for voyeurs

Descontadas as fotos a preto e branco que adornavam as últimas páginas da Enciclopédia Sexual para Adolescentes, publicada pelo Círculo de Leitores algures nos primórdios dos anos 80 (se não era esse o título, seria algo parecido), a primeira cona que vi, ao vivo e a cores, foi mais entrevista que vista, um arbusto frondoso vislumbrado à distância por entre os pinheiros mansos de uma praia algarvia da Ria Formosa.

Teria eu uns 11 ou 12 anos e, em rebanho com o resto da família, cumpria a temporada balnear anual da praxe, num parque de campismo onde, ano após ano, lisboetas e portuenses na sua maioria, passeavam as barrigas proeminentes, eles, e as banhas descaídas, elas, arrastando pela mão a filharada encardida, com baldes e ancinhos de plástico nas mãos, queimaduras de segundo grau nas espaldas e cestos de palha com os pimentos, os tomates e o peixe fresco comprado aos pescadores de Cacela, na iminência da grelha que haveria de se seguir.

Um dia, deambulando em expedição aos camaleões pela mata que, recuada às dunas, servia de respaldo ao mar (hoje em dia urbanizada, edificada e betonizada certamente) em companhia de dois amigos de ocasião - colegas de infortúnio e vizinhos de caravana - vimos, num desnivel do terreno abaixo de nós, avançar pelo arvoredo adentro e provinda da praia uma miúda com cerca de 18 ou 20 anos. Olhando em volta, mas não nos vendo, deteve-se junto a uma antiga casa de taipa, em ruínas. Esperou pouco. Minutos depois, junta-se-lhe a ela um tipo entroncado, mais velho, trintão. Não falam nunca um com o outro: ele encosta-a à parede esboroada e despe-lhe acto contínuo a parte de cima do biquini. As mamas saltam-lhe então do pano como se fossem meloas, o bico escuro e a auréola castanha a fazerem assentar nelas oito pares de olhos: os nossos e os do tipo que, sortudo, as manipulava à tripa forra.

Não posso jurar que foi assim que aconteceu, mas acredito que quando as mamas dela surgiram em cena, dos lábios de todos os intervenientes, quer dos activos como dos passivos, um gemido se escapou. Acaçapado na areia, sentia o coração bater descompassado, dividido que estava entre o medo de sermos descobertos como testemunhas do que lá embaixo se desenrolava e a tesão que me descia pelas costas e se reerguia como lâmina de fogo entre as pernas.

Na clareira, de encontro à ruína, o tipo continuava a sopesar-lhe as mamas gordas e pesadas com ambas as mãos. E, se bem as rolava e esfregava com vigor, agora metia-lhe um joelho entre as coxas. Afastando-as, meteu-lhe então uma mão entre-pernas. Ela, de cabeça retesada e olhos fechadas, não tugia. Sem mais delongas, ele baixa-se então e desce-lhe o calção do biquini até aos tornozelos. É então que surge, pujante, em plena luz do dia, o pêlo farto e escuro (ainda não havia a moda do corte 'à brasileira'), que anuncia com a sua aparição o advento fracturante que constitui o avistamento da minha primeira cona, um evento assim como que a modos de um hossana pintelheiramente triunfal.

Desconhecendo o impacto que está a causar a três putos ainda imberbes, o joelho volta a actuar, lesto, e ela fica assim agora, de perna aberta, um corte cor-de-rosa na vertical por entre um mato preto e denso, uma cona real e verdadeiramente autêntica ali exposta para quem a pode ver. E ele, agora, nem se dá ao trabalho de baixar a sua tanga tigrada mas vê-se que a rebaixa, adivinha-se bem aquilo que se prepara para fazer. Idiotamente, da boca de um dos meus companheiros sai a frase mais estúpida que alguma vez ouvi (e que ainda não me saiu da cabeça até hoje, de tão parva que é):

- olhem agora, olhem, o jipe vai entrar na floresta

e é verdade, o gajo espeta-se nela e prega-lhe várias estocadas, é como se se tivesse transmutado num bandarilheiro enlouquecido, a espetar no lombo carnudo e sedoso da choca que lhe oferece serena e placidamente o lombo escancarado ferros de todas as cores e sortes, e resfolega o animal e eu pergunto-me que sentirão eles, que sente ela, a cabeça assim reclinada, os olhos fechados, as mamas a adejar e a bambolear a cada arremetida do animal que a está a comer, a carne das nádegas a esfolar-se certamente na taipa puída, as pernas abertas, a cona que imagino dilatada com a foda que o tipo lhe está a dar e acabam agora, ele resfolega pela última vez e pára, acabaram-se-lhe os ferros, ajeita a tanga, sacode a pila como se tivesse acabado de mijar e sem sequer a beijar vai-se embora por de onde veio.

Ela, sozinha, apanha o biquini, o calção aqui, o soutien ali, encerra as mamas na prisão do têxtil e volta igualmente por de onde veio.

E eu, eu sigo-a ao longe. Vejo-a entrar na praia, caminhar ao longo da orla do mar e deitar-se, como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido, na toalha, junto a um casal (os pais?) e a um miúdo da minha idade (um irmão?). E eu, eu passo para lá e para cá, uma, duas vezes, mesmo junto a ela e olho-a atentamente e penso: será que se vê na cara dela que foi fodida agorinha mesmo? Será que se veria alguma coisa, sei lá, nos olhos, na cara, será que haveria algo que a denunciasse?

E não, não havia nada, nada nela que mostrasse, a quem não tivesse visto - como eu vi - que acabara de ser fodida, que tivera um caralho dentro dela, a vir-se, certamente. Era como se nada fosse, como se nada tivesse acontecido.

Mas eu vi. E não esqueci.

F is for first readings

Lá em casa, a educação sexual não se dava falada, era lida. Lia-se velhos clássicos da literatura erótica setecentista e oitocentista, polvilhada a escolha, aqui e ali, pelo Miller e a sua trilogia mais famosa. Se aprendi em clássicos como a Fanny Hill a dizer deliquio e ruborescente, com o Miller aprendi que cona era vocábulo que também se escrevia em livros e não apenas em tampos de secretária da escola ou pelas paredes das casas de banho.

Sinal dos tempos, foi com o Miller que aprendi a masturbar-me, nocturna e secretamente, a mão sibilina a mover-se ao ritmo do texto e das fodas dadas pelo protagonista do Sexus, um tipo nihilista que tanto apanhava "esquentamentos na pichota" como enfiava o dedo na cona da Mona por entre as paragens pouco exóticas de uma Paris dos anos 30, nada romântica e muito boémia.

21.12.08

N is for New Year's resolution

Tenho andado a descurar este blog. Por mais que me queira esquecer, a vida real não nos dá muito tempo livre - nem para descansar, nem para por em ordem o passado nem para evocar quem por ele passou.

Acho que chegou a altura de voltar a pegar neste projecto para, sem rebuços, deixar para memória futura episódios que ainda hoje me excitam e me fazem lembrar que estou vivo.