25.2.09

B is for blessed censorship

A grande vantagem do caso da dita censura de Braga, é que agora qualquer blogger se sente respaldado/a para postar no seu blogue uma cona sem que daí lhe caiam os parentes na lama. Basta culpar a PSP e alardear alguma mundividência liberal.

Isto, claro, dando de barato que a argumentação

- ah, isto pornografia? qual quê, é um quadro famoso do Courbert, uma verdadeira obra de arte

é chachada. Aquilo não é uma obra de arte. É uma figuração realista de uma cona, uma figuração feita com muita arte, numa altura em que a fotografia ainda não se tinha tornado naquilo que veio a ser e que depois deixou de ser, aos olhos dos artistas - o registo da realidade.

Já a pornografia, está nos olhos de quem vê.

23.2.09

F is for fucking oblivion - the #2 fuck


Duas semanas após a entrada na gloriosa vida sexuada, eis que deixo o doce remanso da vida civil e entro na cavalgada heróica daqueles a quem é suposto dar sangue pela pátria, numa hemorragia de séculos que, passando pelo Roussilhão, Tocantins e Goa, dura desde a cava de Viriato até às bolanhas da Guiné Bissau.

Ora, a vida castreja em Vale do Zebro implicava no meu tempo (na altura em que a tropa ainda era um clube menina não entra) uma série de miúdos pós-adolescentes e pré-adultos reunidos debaixo de um mesmo tecto, privados de intimidade, de sono, de descanso e de comida em quantidade e qualidade organoléptica minimamente razoável.

Em compensação, a Marinha fornecia copiosa e abundantemente lodo, marchas forçadas, frio de rachar, palhaçada homoerótica

- sua amélia, paneleiro do caralho, mexa-me esse cu, faça de conta que tem uma piça lá dentro, sua amélia do caralho!

humidade a rodos e exercício físico que faria empalidecer de vergonha qualquer freak do Holmes Place. Todo e qualquer pretexto era bom para exercitar os bíceps

- o sol vai nascer, suas amélias do caralho, 100 flexões!

os glúteos

- 20 segundos atrasado, sua amélia. 100 cangurus para toda a gente!

e os gémeos

- foda-se, caralho, que bando de amélias que vocês me saíram! dêem-me já 100 pulos de galo!

e a malta toda a desunhar-se para acertar o passo nos exercícios de ordem unida, a memorizar as menmónicas para os toques de clarim, para o ombro-arma

- eh-pá-põe-me-essa-merda-no-ombro... já!

e para o apresentar-arma

- ena-cumcaralho.. já!

tudo meros ensaios, tímidos até, para a the real thing, o verdadeiro terror que era o Passeio dos Alegres de todas as quartas-feiras, com os altifalantes a debitar roufenhamente marchas marciais que quase que poderia jurar nazis, o vice-almirante a bater com o pingalim ao som da muito provável Flieg, deutsche Fahne, flieg, os pés trocados a pedir tantos pulos de galo e tantos cangurus quanto os necessários para deixar um pelotão inteiro de baixa médica durante 15 dias.

Belos e heróicos tempos esses, em que as amélias se transfiguravam - ou procuravam transfigurar-se - em homens emperdernidos, de barba rija, exemplares tesos dos personagens do Jean Lartéguy, homens capazes de desmontar uma G3 no escuro

- esta G3 é a sua namorada, sua amélia, vai dormir com ela, comer com ela, vai cagar com ela, não a vai largar nunca, ai de si se se separar dela por mais que dois metros, eu que sonhe!

a testosterona a comer-se às colheradas, a virilidade a medir-se pelo número de flexões que se fazia, pelos murros que se conseguiam dar nos outros e se almejava evitar receber, a masculinidade a medir-se, enfim, pela quantidade de álcool que se emborcava sem que ficassemos definitivamente toldados.

Foi na tropa que aprendi a beber. Eu, que com duas cervejas ficava entornado, passei a deter a capacidade de me habituar a beber um quarto de garrafa de extracto de absinto e a ficar (quase) que o mesmo, a virar meia garrafa de gin e a permanecer (quase que) incólume, a deitar abaixo uma grade de cerveja e a não ser (praticamente) nada. Ora, como toda a gente sabe, quando se alia juventude e álcool, um tipo passa a ser invulnerável a tudo - entre outras coisas, à morte, à timidez e à vergonha.

E foi assim que, numa uma bela noite de santos populares, eu e um camarada da guerra nos achámos numas festas quaisquer, de uma terreola qualquer, nas cercanias do campo militar, completamente conspícuos nos nossos pentes-zero, a carteira a arvorar mais preservativos que dinheiro, só para o estilo, o peito feito às miúdas e a boca virada para as garrafas.

Ora, muito raramente alguma daquelas gajas autóctones - mais que habituadas, ano sim, ano sim, à magalada que descia em magote do campo e que se passeava, ufana e galariça, pelo terreiro das festas - cedia. E, se calhava a ceder, era sempre quando o militar era garboso e giro, de piropo fácil e possuía inegáveis dotes de dançarino, fruto de infindáveis bailes na santa terrinha, capaz de fazer voltear com denodo e pujança a escolhida ao som do Toy ou do Emanuel. Quando acontecia, era um caso em mil.

E o meu caso - um gajo absolutamente nada dançarino, de estatura meã e incapaz de qualquer tipo de piropo, romântico ou ordinário que fosse - enquadrava-se sempre nos restantes 999. Sempre? Não, nem sempre. O sempre acabou nesse dia, no dia em que o conteúdo de uma garrafa de White Satin (um gin floral, a saber a Harpic, que passei a abominar desde então) abandonou o vidro e encontrou o meu estômago. Até à metade, a coisa correu bem.

A partir daí, recordo vagamente o emborcar alarve do que restava no fundo e o atirar da garrafa para um contentor. Recordo igualmente que elas eram duas, uma para mim, acho que a morena, a outra, de cabelo de cor indefinível, para o outro tipo. Recordo ainda menos uns amassos por detrás de um muro e o deitar no chão arenoso, onde a foda fungível da praxe se cumpriu. Foi bom? Não faço ideia. A fulana era gira? Não me recordo. Era boazona, ao menos? Um branco total.

Lá diz o velho ditado castrense que em tempo de guerra não se limpam armas. No meu caso, não só não se limparam, como se deixaram enferrujar até à medula. Deve ter sido um dos piores sentimentos que experimentei até hoje, o da foda alienada, inconsequente e incoerente - jurei para nunca mais. Acho também que esta foda número dois foi a minha única one night stand.

Pena, realmente, não me lembrar de qualquer pormenor.


14.2.09

G is for getting my cherry popped part #3 and final


Matemos então a descrição da minha primeira vez e continuemos onde parámos da última vez que aqui referimos o assunto.

Do alto da sua experiência de recém-dervirginada e na expectativa de desflorar um patinho tenrinho, a Patrícia tinha tudo sob controlo: da minha parte, a minha excitação, a antecipação, a vontade e a disponibilidade; da parte dela, a pílula tomada – afinal, como dizia, e bem, o Ubaldo Ribeiro, a primeira vez tem que ser bem regada, senão não é primeira vez coisa nenhuma.

Restava a velha questão da falta de espaço apropriado. Não havendo casa amiga a que recorrer, optámos pela retirada estratégica para a praia. Vista à distância destes anos todos, a solução da praia era realmente uma solução merdosa – estávamos quase em pleno solstício de Dezembro, chovia que Deus a dava, fazia um frio polar e a praia que tinhamos em mente e à mão de semear tinha sempre, mesmo sob temporal, gente a entrar e a sair dela. Mas adiante, deixemos a conversa do tempo merdoso, que esta minha primeira vez decorreu em dois actos, um primeiro falhado e um segundo quase que falhado.

Recordo-me que o primeiro episódio desta verdadeira ópera bufa se deu num sábado em que o tempo se acalmou e se abriu todo ele em radiantes reverberações solares, polvilhadas aqui e ali por ameaçadores cumulonimbus. Depois de uma intensa sessão de preliminares, facilitada por uma saia rodada e umas cuecas finissimas, quase que proto-fio dental, ela guiou-me por entre os rochedos costeiros, abrigando-nos por entre duas fragas. Ora bem, chegara o dia Dê, e o Natal e o Vi day, tudo junto, pensei eu.
E assim parecia, realmente.

À luz crua e branca do sol de inverno, ela encostou-se a uma rocha e como que se deitou para trás. Fechou os olhos e eu, com tudo à minha disposição e vontade, aproveitei e avancei ao reconhecimento. Lancei-lhe as mãos às saias e subi-lhas, enrodilhando-lhe tudo à volta da cintura. A tremer, a pensar que dali a bem pouco saberia como era, realmente, entrar numa mulher, afastei-lhe o triângulo de pano e expus o triângulo de pêlo e a lambugem de dois lábios tumefactos. Num gesto que de há um mês até então a prática tornara expedito e ágil, separei-lhe os gomos do sexo e expus-lhe a labia interior ao meu olhar. Com a outra mão, abri a braguilha e puxei-me para fora, acercando-me dela. E foi nesse momento, em que eu todo latejava e ela toda palpitava, foi nesse preciso momento dizia eu que, por cima de nós e invisível por detrás das falésias, mas aproximando-se, soou um charivari de vozes e risos.

Em pânico – mais eu que ela, que ela nestas coisas de arremedos de penetrações, voyeurs e masturbações em público mantinha quase sempre a sua esfíngica postura – compusemo-nos como pudemos e assobiámos para o lado, a fingir que andávamos ao caranguejo ou à lambujinha. E o que era que se aproximava? Uma companha completa de aderecistas, produtores, fotógrafos e modelos da Loja das Meias que certamente tinha resolvido aproveitar a luz que surgira inopinadamente para ultimar uma qualquer photo shoot.

Damn! A coxear de tesão, lá fui atrás dela, cada um para sua casa. Melhores dias haveriam de vir, pensei. E assim foi, novamente, a surgir, pós-natalícia, a noite de 27 de Dezembro – noite que nada tem de especial a não ser o facto de ocorrer dois dias após o Natal e de ter sido a noite em que, finalmente, deixei para trás o estatuto de puto virgem e imberbe (mais o de virgem que o de imberbe), noite que ocorreu de supetão, o corolário de uma tarde especialmente entesoante em que, inebriado de sexo até aos punhos e a pedir alívio rápido e indolor, soltei o meu grito do Ipiranga e decidi que daquela noite não passava.

Infelizmente, a Patrícia não fora preparada para tal declaração de livre arbítrio. Vestida para o frio glacial ártico que se fazia sentir naquela noite, ia com uns collants blindados que me consumiram uns bons vinte minutos a despir e a desenrolar. E agora, finalmente, como sempre fora desde a noite dos tempos, eis que havia um macho entre as pernas de uma fêmea em decúbito dorsal. E eis que ele segurava no sexo impaciente e o guiava para algures em direcção àquela mulher.

Mas eis que um nóvel problema que se colocava então, senhoras e senhores. E o problema era a localização precisa e exacta desse algures – é que se nós, homens, podemos ver filmes porno ad nauseam, se podemos analisar com olho crítico e forense toda e qualquer foto de penetração que vislumbrar consigamos, se podemos até ler sobre o assunto da conexão humana em mil e um tratados anatómicos, não podemos nunca estar minimamente preparados para a hora da verdade, a altura em que o res, non verba se impõe.

É que, confessemos, no meio de tanta labia, de tanto festo e refego, de tanta carne mole, aderente e oclusa, um tipo dar com uma abertura diabolicamente inclinada contra natura não é nada fácil.

E, naquela noite, não foi mesmo nada fácil. Suores frios e antevisões de um inferno de impotência feito atormentaram-me imediatamente, assim que o meu membro cego contactou com a sua pele e marrou irremediavelmente contra uma qualquer parcela de carne e pêlos, definitivamente epidérmica e nada mucósica. A mão que me guiava tentou então, em desespero de causa, apalpar terreno, os dedos livres a tactear acima, abaixo, dos lados, à procura de qualquer vislumbre de orifício por onde me encaixar.

Debalde. Enquanto a mente se ocupava num multitasking infernal – olhar em roda a ver se viria algum mirone ao nosso encontro, soerguer-me num braço e numa mão e segurar com a outra a pila agora ensandecida e confusa, olhar para a Patrícia e detectar a mais leve expressão que indicasse enfado, desagrado ou mofina, tudo isto enquanto sublimava a chuvinha que caía agora e o enregelar do rabo com a salsugem e o rocio do mar – o pânico começou a tomar conta de mim.

- Como é que isto se faz? Porra, porra, onde é que isto se enfia?

E claro, sendo o pânico um mau conselheiro, as coisas só poderiam piorar. Julgando ter finalmente encontrado uma rampa de lançamento – juro que os meus dedos creram ter sondado as suas profundezas – encaixei-me e empurrei-me, com força viril, para baixo e para dentro.

Infelizmente, aquilo que julgara ser a sua íntima conduta mais não era do que a comissura dos grandes lábios. Resultado: aterrei de glande em cheio na areia fina da praia. Mil vezes porra! Não é que me tivesse doído, mas sentia com os dedos a ponta do sexo como se fosse um brigadeiro acabado de fazer: a escaldar, mas cheia de vermicelli por todo o lado. O pior é que o vermicelli era de areia e não de chocolate.

- Ok. Don't panic. Pensa. Abortamos tudo? Continuamos em frente e seja o que Deus quiser?

E foi o que Deus quis. Com areia e tudo. Talvez até tenha ajudado, a dar tracção ou isso, porque à segunda tentativa entrei finalmente. E, curiosamente, dei por mim a pensar que a sensação, apesar de muitíssimo agradável, não era tão intensa como levara centenas de noites a imaginar.

Talvez fosse da areia. Deus lá saberá. Ela, pelo menos, não se queixou.

11.2.09

B is for matador (muff) diving part #3

A primeira vez que o enfrentamos, para o provar, é como nas touradas. Nós, indefesos, de dedos nas ilhargas, a mirar o animal, a tentar apurar as suas manhas e os seus defeitos, a julgá-lo pela maneira como se mexe, como se refugia à fé púnica em tábuas ou, como pelo contrário, tem recorrido longo e procura saleroso o centro da arena.

Ora bem, eis-nos frente a frente com o bicho. Como é animal que se quer manter vazio, não vamos ter faena de muleta no final. Melhor, nada de meritórios muletazos - o que nos deixa a mente e o tempo livres para nos dedicarmos a uma prolongada e extremosa sorte de bandarilhas, a modos que a querer marcar-lhe a pelagem para o resto da vida. 

Com um afarolado de joelhos, poder a poder, olhamo-nos, eu e o sexo que, encharcado, me enfrenta, entre o expectante e o receoso. Como a sorte só vale se o bandarilheiro mandar, abro-me de capa, paternal mas autoritário e cito o corpo que se abre à minha frente. 

Primeiro as mãos. E os dedos, especialmente os dedos. Não se pode nunca entrar recto à cara do bicho. Tal como o matador não começa a lide matando o touro, assim quem mineta não pode começar pelo óbvio. E o óbvio é o clitóris, esse apêndice que é melhor deixar para o fim, quando tudo o mais tiver sido excitado e preparado para o que há-de vir. 

Assim sendo iniciemos a função pelas cortesias. Cumprimentemos os pés. Massajemo-los. Acariciemo-los. Subamos, com dedos e boca e lábios e língua pelos pés acima e passemos à perna. Lidemos ao engano e voltemos atrás, aos pés. Novamente os dedos, a desenhar na pele navarras, rematadas com uma serpentina. Subo. Subo mais ainda, as pernas do touro distendem-se pelos curvilhões, pedem capote. Toco-a. Toco-o, os meus dedos palpos de aranha, bandarilhas leves e ágeis que ora estão aqui, ora estão ali, a marcar, a tatuar para sempre o meu nome na pele elástica e fremente. E a boca que vem atrás, a confirmar a pressão dos dedos, o arrepio das impressões digitais a ser substituído pelas chicuelinas da língua, animal e bandarilheiro inebriados os dois um do outro, o mundo é só arena agora, arena e sol e sombra e a multidão que solta olés a cada verónica dos meus lábios.

E a boca faz contacto lá, quase lá, é ao lado, de lado, por baixo, rés vés, nada óbvia e há um dedo que separa e entra e se imiscui, coleante, e aperta agora em cima, pressiona a carne, por dentro, de encontro à minha boca, por fora, procura agora o sexo desembolado, a sua topografia sabida na ponta da língua, outro dedo que entra agora, toco lá, uma, duas vezes, toca-e-foge tantalizante, o touro trapio, soam olés na praça ensandecida, benedicta tu in mulieribus et benedictus fructus ventris tui, toda ela bravura, toda ela prenhe de casta, cheia de mobilidade, só força, descolo a boca, respiro para cima do bicho, eis um dedo que entra mais, mais afoito, por ela adentro, penetra com cuidado o o fóramen central do hímen, ela retesa-se de medo e lúxuria, o bandarilheiro manda, manda a boca do bandarilheiro, todo ele língua e dedos, agora suga, lambe, afaga, manipula, conduz a montada com a ponta dos dedos, bebe dela a mínima reacção, para cada reacção opõe uma acção, pensa que o povo tem muita razão

- quem monta a besta é que sabe o cómodo que ela lhe dá

cavalga-lhe o prazer que vem a galope, excita-se com o galope do seu prazer, a estocada final, a boca que pressiona o sexo de encontro aos dedos que pressionam por dentro, a mulher um bicho empalado, a estrebuchar no estertor do orgasmo, brutal, mortífero, o bandarilheiro a cravar-lhe o espeque que para sempre será a bitola pelo o qual se terão que comparar todos os outros bandarilheiros que se lhe seguirão, olé, rabo e orelha, olé, saída triunfal pela porta monumental, olé, que venha o traje de luces. Olé!


8.2.09

A is for award

Obrigado, Elisabeth.

7.2.09

V is for virgin pussy (muff) diving part #2


A Cláudia entrou na mesma carruagem que eu, em Marvão – o que não foi difícil tendo em conta que o comboio era apenas máquina e carruagem. Na altura, sobrecarregado com a parafernália toda do montanhismo - os cabos dinâmicos e estáticos, os grigris, os mosquetões, os oitos do rappel – nem olhei bem para ela. Acho que foi só por alturas da Torre das Vargens ou, quiçá, de Ponte de Sor, que cruzámos olhares.

Basicamente, a Cláudia era uma pita. Uma pita gira, de cabelos compridos e lisos, olhos amendoados e escuros - mas pita. Tudo nela gritava pita – o rosto, jovem demais para a idade (18 anos, quase 19, viria a saber mais tarde), a calça largueirona em baixo e justa em cima, com a cintura descaída a mostrar o umbigo, os ténis surrados, um daqueles pregos espetado numa orelha, um top ou lá o que era aquilo (não percebo nada de roupa) justo, uma camisola larga, um casaco e uma mochila da McKinley.

Ora, nem toda a gente anda com uma mochila McKinley, coisa que se justificou quando fizemos o transbordo em Abrantes e ela se ofereceu para me ajudar a levar a tralha com um

- também faço escalada.

E foi assim que matámos a viagem e os inúmeros apeadeiros, a confabular sobre vias, desníveis, cordadas e técnicas de progressão (mais tarde haveria de constatar contérrito que, para além da escalada, não tínhamos absolutamente nada em comum; nem a linguagem, nem os livros que líamos, nem o código do vestuário, nem um grupo musical que se visse - eu fossilizara nos Doors e nos Dire Straits, ela era mais merdas do género Lamb, Black Eyed Peas, Miss Elliot, Justin Timberlake, Coldplay e Maroon 5).

Aliciado apenas pelo seu conhecimento da serra de São Mamede (juro), trocámos emails e telemóveis e despedimo-nos em Santa Apolónia. Passada uma semana, mais dia menos dia, recebo um mail simpático, com duas ou três amabilidades, a que respondi com outras duas ou três palavras inócuas, relembrando-a que um dia haveria de a contactar para saber coisas em concreto sobre uma determinada via da Serra Fria.

Bom, uma coisa levou a outra e os mails sucederam-se. Em dois meses fiquei a saber da vida da Cláudia de dentro para fora e de fora para dentro. Não que houvesse muito que saber, claro: caloira de Bioquímica em Lisboa, os pais e uma irmã mais velha no interior profundo, a morar sozinha numa casa da família em Belém, os infrequentes amores da juventude e pouco mais.

Durante esses dois meses a coisa evoluiu de tal modo que eu - que não sou nada do tipo de pensar que old enough to bleed, old enough to breed e que não gosto das minhas mulheres imberbes - acabei por ceder ao misto de adoração, gargalhada fácil, fascínio e sedução núbil e desajeitada que a Cláudia irradiava como um farol oceânico na minha direcção. Ao segundo dia ensoado de praia tínhamo-nos beijado, no café seguinte sucumbíramos ao derriço e, a partir do segundo cinema, estávamos oficialmente em contubérnio.

Ora, deixando de parte as coisas mais sérias desta relação – o incómodo da disparidade de idades, quase o dobro, que sempre pendeu entre nós, as suas imaturidades e a minha impaciência para as aturar, etc. – vamos ao que interessa: a Cláudia era virgem, facto que alardeava com algum orgulho e embaraço desde quase que o primeiro dia em que nos víramos.

E se virgem era, virgem continuou (daí não lhe ter sido atribuído o costumeiro número do Diabo):

primo, porque não me apeteceu manipulá-la (literal e cerebralmente falando) até ao desfloramento e;

- secundo, porque nessas merdas eu ainda sou, basicamente, o último dos herdeiros do Sturm und Drang, o gajo vestido à romântico do século XIX que, perante a erecção inopinada que surge ao primeiro beijo, logo declama e infame sou, porque te quero; e tanto/ que de mim tenho espanto/ de ti medo e terror.../ mas amar!... não te amo, não.

Logo, escoaram-se semanas em que as noites eram única e exclusivamente ocupadas em meles de boca – um refrigério para quem, como eu, passara a década passada a foder que nem um castor. Desnudá-la, nem pensar nisso, que ela não deixava e metia-se nas encospas (sabia-se fraca). O mais que havia era acesso ao peito.

Peito, que digo eu? Peito, não. Seios – aqui o termo é mais do que justamente empregue. Eram positivamente os seios mais bonitos que vi, manuseei (e fotografei) até hoje. Dois hemisférios perfeitos, a explodir de tónus e firmeza – recordo-os ainda agora com emoção, a pura reencarnação dos da Vénus Anadyomene de Ticiano.

Portanto, seios e boca, era a isso que eu me resignava - apesar de por vezes, se suficientemente excitada, ela se deixar ir no embalo e se esquecer de me retirar atempadamente a mão de dentro das suas calças. Logo, a bem dizer, era seios, boca e algum, pouco, do aparentemente farto pêlo púbico que eventualmente podia gazofilar.

Até que um dia, deitados na sua cama e na exacta véspera de partir para o outro lado do mundo - de onde só voltaria passados dois meses - a combinação de excitação, tesão, saudade por antecipação, confiança em mim e a vontade de me dar um presente de despedida inesquecível a levou, por fim, a deixar a resistência activa e a oferecer-me apenas uma oposição passiva, a necessária para que pudesse salvar a face, no caso das coisas correrem para o torto.

Surpreso pelo volte face, despi-lhe as calças e depois a cueca salvanda que pousei delicadamente na mesa de cabeceira como se fosse uma peça de relojoaria cara e dispendiosa. Reclinada, olhava-me com um olhar pesado, solene. Afastei-lhe então, devagarinho as pernas, fazendo avançar a minha mão por entre elas acima. Um último momento de hesitação e ela abre-se totalmente à minha vista.

E, lo and behold!, a meus olhos surge a cona mais pré-rafaelita que me fora dado a ver até então – perdoem-me a crueza do vocábulo (sim, eu sei que já discutimos isto aqui passim) mas não poderia deixar de lhe dar outro termo dado o visível grau de excitação em que se encontrava aquele sexo entunicado e virgem que eu iria agora delibar pela primeira vez.


continua

6.2.09

M is for muff diving part #1

Se existe um terreno sagrado por excelência, que simboliza todos os outros terrenos e sintetiza a ideia de existência, vida e morte, esse é o espaço acidentado da vulva de uma mulher


Exceptuando os casos raros da fertilização in vitro (aviso à navegação, o latim entesa-me e hoje vou abusar dele, habituem-se, portanto, como diria o outro) ou da cesariana (que, até ao século XIX, era feita quase que exclusivamente em mulheres mortas ou moribundas, emulando o mito original de Esculápio) a vulva sempre foi porta exclusiva e única.

Porta de entrada da semente masculina e porta de saída da nova vida, garante da perpetuação da espécie, esse milagre em ritmo shark frenzy que é a reprodução sexuada, tão bem descrito por Thornhill e Palmer (vidé epigrafe deste blogue).

Benedictum fructum ventris tui - assim oram os católicos e assim murmuram todos os homens crentes e não crentes em extática contemplação vulvar. Todos?

Não, todos não. Nem todos.

Para além do grupo óbvio dos homens gay - que é mais pilas - aparentemente há alguns homens que não gostam do ventre das mulheres nem dos seus apetrechos anatómicos mais exteriores, como se na sua entrada houvesse o proverbial cave cunnus. Ainda aparentemente (e sei isto de o ouvir dizer ou de algumas mulheres assim me o terem contado) há homens que, perante a perspectiva de comungarem do corpo feminino, das duas, uma: ou invectivam logo um abrenúncio e invocam um ad nutum ou fazem-lhe o frete, com enfado e um vamos lá a despachar esta merda que a seguir é a minha vez.

O que não se compreende, pelo menos visto daqui da minha muito pessoal opinião. Afinal, em quase toda a classe vulvar - em que, se algumas são tão perfeitas, puras e simples como uma nossa senhora, outras parecem uma incerta planta carnívora desalinhada - reside a perfeição fractal da Natureza, a matemática bayesiana da simetria, a ordem do belo e da estética excitante (reparem que disse em "quase toda" - é que, mutatis mutandis, se a grande maioria das mulheres porta entre pernas o equivalente anatómico à Capela Sistina, outras há que detêm algo parecido com os projectos que o Sócrates alega ter desenhado para Unhais de Baixo e Couratos de Cima).

É esta dualidade de critérios, a sacralidade e a fractalidade, que explica o meu fascínio por elas - e, ipso facto, que vaginas de plástico ou de silicone nada me digam como hipótese cómoda e maneirinha de substituição da real Mckoy, de carne, pregas e até defeitos feita, pelo sucedâneo artificial à venda numa sex shop perto de mim ou ao alcance do cartão de crédito numa qualquer loja online. Bom, mas vamos ao que interessa, vamos ao presigo deste texto: o cunnilingus e o seu (meu, pelo menos) modus operandi.

Como acima ficou dito, há que gostar de vulva. Neste caso, e a contrario sensu, melhor do que ter um profissional, é ter um amador, um homem que não só reverencie a vulva em toda a sua variegada morfologia como, especial e particularmente, venere aquela vulva, a que está em custódia à sua frente, ao alcance da visão, do toque e do gosto.

Em primeiro lugar, há que se certificar que estejam presentes alguma condições sine qua non, .s.s.

- espaço amplo, iluminado q.b., confortável, quente, sem distracções exteriores (por exemplo, a TV, uma manifestação da CGTP, janelas a dar para o rio e para os paquetes que passam, um deputado dos Verdes, etc.) e com uma porta que se possa fechar (pormenor muito importante);

- uma vulva, depilada nos grandes lábios, para melhor falta de aderência e melhor localização do ponto cê;

- um homem, de preferência com a face bem escanhoada, sem tesões urgentes para resolver (isto é, se estão a pensar em aplicar uma variante prolongada da manobra de valsava àquela senhora que acabaram de conhecer e da qual vocês ainda não sabem muito todos os mistérios, de como grita e por quê, de quem chama no momento do delíquio ou quais as manobras que consegue fazer em vocês com uma língua e cinco dedos - esqueçam, it's too early for good muff diving).

O resto - o verdadeiro modus operandi - fica para esta noite.

3.2.09

W is for what's in a name?


what's in a name? that which we call a rose
by any other name would smell as sweet.



Abri-lhe as pernas com denodo e ela gemeu alto, em antecipação. Os dados estavam lançados e havia agora que prosseguir sem medos nem pruridos, direito ao assunto, sem circunlóquios, a boca em solilóquio com o mons venus da minha número dezanove que movimentava agora as ancas enérgica e ritmadamente, a pedir sem palavras o óbvio.

Sem palavras? Não, caro leitor, escrevi eu cedo de mais e leram vocês quatro linhas acima daquilo que então aconteceu. E o que aconteceu foi isto: assim que a minha boca lhe tocou, ela sai-se com esta:

- anda, anda, lambe-me a ratinha!

Ratinha? travei eu, logo imagens de ratazanas nojentas, daquelas que andam pelas margens do Tejo, em Porto Brandão ou no Beato, a povoarem-me o cérebro, o pêlo hirsuto e oleoso, o rabo escaludo e grosso que nem um cabo submarino, a varrer com esmero os dejectos que entopem, como ateromas, os canos dos esgotos que desaguam no rio.

- Ratinha? Quéstamerda, já chegou o Entrudo?

É que se há coisa que me causa impotência são estes nomes que as pessoas arranjam para evitar chamar as conas e os caralhos pelos nomes. Já ouvi de tudo, desde a pessoalização da coisa:

- dá-mo nela

que me deixa logo a pensar na prima Nelinha, até às que a baptizam com o seu próprio nome:

- mexe-me na Carlinha, mexes?

sempre em diminuitivozinho, a Patríciazinha para aqui, a Gabrielazinha para acoli, parece que estamos numa creche. E depois, depois claro, há as infantilizações: a rachinha, a pipoca, o pipi, a pombinha e, a mais aleivosa de todas, a coninha.

Chamar coninha a uma cona é como chamar bombazinha nuclear a um bomba H daquelas capazes de vaporizar uma província inteira, é como dizer homenzinho quando se está perante o Tarzan Taborda, é chamar bichaninho a um tigre da Malásia com 25o quilos de peso.

Imaginemos os romanos, esse grande povo da Antiguidade, responsável pela introdução do vocábulo cunnus na nossa língua. Imaginemos a romana anónima que um dia grafitou há mais de dois mil anos atrás nas paredes do porto de Óstia o imperativo Livius me cunus lincet - Lívio, lambe-me a cona. Isto sim, é de mulher, de gaja que sabia bem o que queria do Lívio - esta mulher não era, definitivamente, uma coninhas.

Já a mulher hodierna que acha que tem uma coninha entre as pernas só pode ser mulher de cona imatura, daquelas que se apanha ao engodo e que se atira de volta ao mar por manifesta falta de peso e maturidade, por falta de especificação legal. Mulher que acha que tem uma coninha é mulher que parou de crescer quando tinha oito anos, é mulher que deve ter, algures em casa, uma divisão só para as Barbies e para as Bratzs. Basicamente, mulher que tem coninha leva apenas fodinhas.

Enfim... voltemos à vaca fria: só se aceitam dois desvios em relação à norma do epíteto conal - por respeito aos regionalismos e por deferência a mulher estrangeira.

No primeiro caso, aceita-se perfeitamente que mulher de cunho regionalista imprima à conversa de cama uma deriva nortenha ou até insular - por exemplo, a minha décima sexta chamava-lhe cenisga, a minha décima sétima chinchona e a minha décima quarta vinha-se sempre que eu usava qualquer frase antecipatória com o termo chucha. Como nada tenho contra o dialecto galaico-duriense, esse adamítico bastião de resistência à romanização, nem contra o falarejar micaelese, resquício do Português de quinhentos, ou sequer contra o patois algarvio, admitem-se perfeitamente estas três variantes.

O mesmo relativamente à mulher não portuguesa - mas com as devidas adaptações. O pior caso sucede quando nem eu nem ela partilhamos a mesma língua e temos que recorrer ao inglês para comunicarmos - convenhamos que, depois do Pulp Fiction e de toda a catrefada de séries pós modernas que surgiram no cabo, um gajo dizer Fuck me! ou I'm gonna eat your cunt é tão transgressivo como dizer You have a fat ass ou Your hair looks bad (em certos casos, será até menos transgressivo).

Se ela é, pelo contrário, originária de uma cultura e de uma língua que dominamos, o caso resolve-se facilmente: basta saber qual o termo equivalente, no seu vocabulário, ao epíteto conal. E, não, não se deixem ir em conversas, porque a praga das ratinhas e das coninhas é verdadeiramente universal. 

Com as brasileiras, por exemplo, nunca aceitem nada menos que buceta. As xanas, xaninhas, pererecas, xoxotas e quejandas não passam de palavreado infantil para enganar papalvos. Aliás, homem que é homem e não é papalvo só se digna montar uma canarinha depois de a ter feito dizer-lhe: vou dar minha buceta para você, frase que é um bom epítome do deboche e da vadiação para uma mulher brasileira, sendo o dar pior que o foder (dica: com as sul-americanas de expressão espanhola, funciona muito bem o vocábulo chucha que, curiosamente, é o mesmo que é javardamente utilizado no reino dos Algarve).

Resumindo e concluíndo: o sexo quer-se feito com palavras fortes, nada ambíguas ou ambivalentes.

Como fazer então perante uma ratinha, uma pipoquinha ou uma coninha, quando inopinadamente elas se nos atravessam à frente? Simples. Sigam-me na conclusão do episódio de abertura.

- anda, anda, lambe-me a ratinha!

ajoelho-me entre as pernas dela e reclino-me perante o sexo imbrífero. A incongruência da coisa confrange-me. É uma cona exuberante, depilada como gosto, pertencente a uma tipa que, apesar de ser facaneia na cama, não só está a fazer um doutoramento em Engenharia como é também professora universitária, uma mulher do Norte que conduz um espaventoso Porsche Boxster, uma oferta do pai, industrial da fiação, o carro um statement em que a bota não bate com a perdigota da ratinha. Ainda se tivesse dito rata - palavra ainda mais detestável - talvez a desculpasse com um putativo estágio como peixeira no Bolhão. Agora ratinha? Ná, há que educar esta senhora, na boa tradição dos campos de reeducação de Pol Pot e de Estaline.

Abro-a com dois dedos, a furta-passo. Está viscosa e mais que preparada para me receber, qualquer parte minha, não importa o quê. Uso a táctica fálica do pau e da cenoura, o pau frascário que prometo, a cenoura mela que prometo também, mas que não dou para já.

- que queres que faça, Rita?

- a ratinha, lambe-a, lambe, contorce-se ela.

- queres que ponha a minha boca na tua cona, Rita, pergunto, impávido e sereno, treinei imenso ao espelho.

Silêncio. Gemidos, mais roçar de ancas. Afasto os dedos, fico só à esculca, a respirar-lhe para cima da vulva, é uma cena básica de demarcação de território, estou lá, mas não estou, aprendi naqueles programas da natureza, da BBC, com leões e assim. Deixo o tempo escorrer um pouco mais, deixo que ela fique aflita, a pensar que vai ficar pendurada. Subo-lhe até ao ouvido e sussuro-lhe, enquanto a minha mão volta a fazer contacto com ela:

- diz-me onde queres a minha boca, Rita.

Silêncio. Respiração pesada.

- diz-me que queres a minha boca na tua cona, Rita.

Silêncio. Os meus dedos devassam-na e difluem, agora. Muito.

- diz-me, diz-me que queres.

E ela diz, de olhos fechados, a cintura esgarabulha:

- quero a tua boca na minha cona.

Bem vinda ao mundo dos adultos, Rita.