A Cláudia entrou na mesma carruagem que eu, em Marvão – o que não foi difícil tendo em conta que o comboio era apenas máquina e carruagem. Na altura, sobrecarregado com a parafernália toda do montanhismo - os cabos dinâmicos e estáticos, os
grigris, os mosquetões, os oitos do
rappel – nem olhei bem para ela. Acho que foi só por alturas da Torre das Vargens ou, quiçá, de Ponte de Sor, que cruzámos olhares.
Basicamente, a Cláudia era uma
pita. Uma pita gira, de cabelos compridos e lisos, olhos amendoados e escuros - mas pita. Tudo nela gritava
pita – o rosto, jovem demais para a idade (18 anos, quase 19, viria a saber mais tarde), a calça largueirona em baixo e justa em cima, com a cintura descaída a mostrar o umbigo, os ténis surrados, um daqueles pregos espetado numa orelha, um
top ou lá o que era aquilo (não percebo nada de roupa) justo, uma camisola larga, um casaco e uma mochila da
McKinley.
Ora, nem toda a gente anda com uma mochila
McKinley, coisa que se justificou quando fizemos o transbordo em Abrantes e ela se ofereceu para me ajudar a levar a tralha com um
-
também faço escalada.E foi assim que matámos a viagem e os inúmeros apeadeiros, a confabular sobre vias, desníveis, cordadas e técnicas de progressão (mais tarde haveria de constatar contérrito que, para além da escalada, não tínhamos absolutamente nada em comum; nem a linguagem, nem os livros que líamos, nem o código do vestuário, nem um grupo musical que se visse - eu fossilizara nos
Doors e nos
Dire Straits, ela era mais merdas do género
Lamb,
Black Eyed Peas,
Miss Elliot,
Justin Timberlake,
Coldplay e
Maroon 5).
Aliciado apenas pelo seu conhecimento da serra de São Mamede (juro), trocámos
emails e telemóveis e despedimo-nos em Santa Apolónia. Passada uma semana, mais dia menos dia, recebo um
mail simpático, com duas ou três amabilidades, a que respondi com outras duas ou três palavras inócuas, relembrando-a que um dia haveria de a contactar para saber coisas em concreto sobre uma determinada via da Serra Fria.
Bom, uma coisa levou a outra e os
mails sucederam-se. Em dois meses fiquei a saber da vida da Cláudia de dentro para fora e de fora para dentro. Não que houvesse muito que saber, claro: caloira de Bioquímica em Lisboa, os pais e uma irmã mais velha no interior profundo, a morar sozinha numa casa da família em Belém, os infrequentes amores da juventude e pouco mais.
Durante esses dois meses a coisa evoluiu de tal modo que eu - que não sou nada do tipo de pensar que
old enough to bleed, old enough to breed e que não gosto das minhas mulheres imberbes - acabei por ceder ao misto de adoração, gargalhada fácil, fascínio e sedução núbil e desajeitada que a Cláudia irradiava como um farol oceânico na minha direcção. Ao segundo dia ensoado de praia tínhamo-nos beijado, no café seguinte sucumbíramos ao derriço e, a partir do segundo cinema, estávamos oficialmente em contubérnio.
Ora, deixando de parte as coisas mais sérias desta relação – o incómodo da disparidade de idades, quase o dobro, que sempre pendeu entre nós, as suas imaturidades e a minha impaciência para as aturar, etc. – vamos ao que interessa: a Cláudia era virgem, facto que alardeava com algum orgulho e embaraço desde quase que o primeiro dia em que nos víramos.
E se virgem era, virgem continuou (daí não lhe ter sido atribuído o costumeiro número do Diabo):
–
primo, porque não me apeteceu manipulá-la (literal e cerebralmente falando) até ao desfloramento e;
-
secundo, porque nessas merdas eu ainda sou, basicamente, o último dos herdeiros do
Sturm und Drang, o gajo vestido à romântico do século XIX que, perante a erecção inopinada que surge ao primeiro beijo, logo declama
e infame sou, porque te quero; e tanto/ que de mim tenho espanto/ de ti medo e terror.../ mas amar!... não te amo, não.Logo, escoaram-se semanas em que as noites eram única e exclusivamente ocupadas em
meles de boca – um refrigério para quem, como eu, passara a década passada a foder que nem um castor. Desnudá-la, nem pensar nisso, que ela não deixava e metia-se nas encospas (sabia-se fraca). O mais que havia era acesso ao peito.
Peito, que digo eu? Peito, não.
Seios – aqui o termo é mais do que justamente empregue. Eram positivamente os seios mais bonitos que vi, manuseei (e fotografei) até hoje. Dois hemisférios perfeitos, a explodir de tónus e firmeza – recordo-os ainda agora com emoção, a pura reencarnação dos da
Vénus Anadyomene de Ticiano.
Portanto, seios e boca, era a isso que eu me resignava - apesar de por vezes, se suficientemente excitada, ela se deixar ir no embalo e se esquecer de me retirar atempadamente a mão de dentro das suas calças. Logo, a bem dizer, era seios, boca e algum, pouco, do aparentemente farto pêlo púbico que eventualmente podia gazofilar.
Até que um dia, deitados na sua cama e na exacta véspera de partir para o outro lado do mundo - de onde só voltaria passados dois meses - a combinação de excitação, tesão, saudade por antecipação, confiança em mim e a vontade de me dar um presente de despedida inesquecível a levou, por fim, a deixar a resistência activa e a oferecer-me apenas uma oposição passiva, a necessária para que pudesse salvar a face, no caso das coisas correrem para o torto.
Surpreso pelo volte face, despi-lhe as calças e depois a cueca salvanda que pousei delicadamente na mesa de cabeceira como se fosse uma peça de relojoaria cara e dispendiosa. Reclinada, olhava-me com um olhar pesado, solene. Afastei-lhe então, devagarinho as pernas, fazendo avançar a minha mão por entre elas acima. Um último momento de hesitação e ela abre-se totalmente à minha vista.
E,
lo and behold!, a meus olhos surge a cona mais pré-rafaelita que me fora dado a ver até então – perdoem-me a crueza do vocábulo (sim, eu sei que já discutimos isto aqui
passim) mas não poderia deixar de lhe dar outro termo dado o visível grau de excitação em que se encontrava aquele sexo entunicado e virgem que eu iria agora delibar pela primeira vez.
continua